O que os guias de viagem ainda erram sobre Chicago
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O que os guias de viagem ainda erram sobre Chicago

Já passei tempo suficiente a percorrer Chicago em visitas repetidas, na neve derretida de janeiro e na humidade de julho, para notar um padrão que começou a irritar-me genuinamente: metade do que se escreve sobre esta cidade é copiado, não observado.

As mesmas cinco frases, para sempre

Abra dez capítulos de guias de viagem sobre Chicago e vai encontrar, por alguma ordem, as mesmas cinco afirmações: o South Side é perigoso, o inverno torna a cidade insuportável, o L é sujo e pouco fiável, a pizza deep-dish é o que as pessoas realmente comem aqui, e o Bean é uma armadilha para turistas que não vale a pena. Estas frases são copiadas, ligeiramente reformuladas, e transmitidas adiante. Ninguém parece ter verificado se ainda são verdadeiras, ou se alguma vez o foram da forma simplista como são apresentadas.

Quero ser cuidadoso aqui. Não estou a argumentar que os guias mentem de propósito. Parece-me mais próximo da preguiça, ou de um ciclo editorial que premeia uma frase de efeito em vez de um facto verificado. Mas o efeito para o visitante é o mesmo: chega preparado para uma cidade que não existe bem assim.

A frase sobre o South Side que não sobreviveria a uma tarde em Hyde Park

O aviso sobre o South Side é o que mais me incomoda, porque é repetido com tanta confiança e tão pouca nuance. Passei uma tarde a caminhar desde os bairros de Hyde Park e do South Side até ao Museum of Science and Industry, cruzando-me com estudantes universitários, famílias com carrinhos de bebé, e um mercado de produtores que não tinha nada de ameaçador. Isto não apaga preocupações de segurança reais em zonas específicas do South Side — nenhum escritor honesto deveria afirmar que uma cidade não tem os seus problemas — mas tratar uma secção inteira e enorme de Chicago como estando totalmente fora de questão é o tipo de atalho que só sobrevive porque a maioria dos autores de guias nunca lá foi verificar.

O inverno, reconsiderado em tempo real

Também cheguei à espera da versão de terror invernal de Chicago, aquela em que o vento vindo do lago supostamente acaba com a viagem antes de esta começar. Estava frio — genuína e cortantemente frio, perto dos zero graus durante o dia, exatamente como a estação promete — mas a época festiva do Natal acabou por ser uma das melhores alturas em que já vivi a cidade: museus mais calmos, uma luz completamente diferente no Riverwalk, e nenhuma das multidões de verão junto a o Loop. Nada disto contradiz o conselho sobre a melhor altura para visitar, segundo o qual a primavera e o outono são estações mais amenas. Contradiz sim a afirmação mais simplista, repetida por todo o lado, de que o inverno deve simplesmente ser evitado.

Andar de L em vez de ler sobre ele

Os guias adoram descrever a CTA e o metro suspenso, o “L” como algo entre um incómodo e um perigo. Andei nele constantemente, a horas estranhas, carregado de sacos depois de um longo dia perto do Riverwalk, e o pior que aconteceu foi uma espera de quinze minutos numa linha que não funciona durante a noite — o que é uma limitação real, que vale a pena conhecer, não um defeito de carácter. Andar nele fora das horas de ponta acabou por ser uma das partes mais agradáveis e sem incidentes da viagem, o que não é uma frase que apareça com frequência nos textos dos guias.

Fiz também o cruzeiro de arquitetura pelo rio que todas as fontes recomendam, e desta vez o consenso confirmou-se — o cruzeiro de arquitetura de Chicago ao longo do rio mereceu genuinamente a sua reputação, o que me tornou ainda mais desconfiado em relação às afirmações que não se confirmaram.

A discussão sobre a pizza que não esperava ter comigo próprio

Parti do princípio, porque todas as listas mo diziam, de que a deep-dish era simplesmente “a pizza de Chicago”. Depois observei as pessoas com quem viajava — e, mais revelador ainda, as pessoas que via a almoçar em dias comuns de semana — a escolher com muito mais frequência fatias tavern-style, de massa fina. A deep-dish é real, vale a pena provar uma vez, mas apresentá-la como a comida do dia a dia da cidade, em vez de uma especialidade ocasional virada para o turismo, é exatamente o tipo de simplificação que acontece quando ninguém confronta a afirmação com o comportamento real.

Arranha-céus, o Bean, e erros básicos

Até os pequenos factos aparecem trocados. Mais do que uma fonte que li antes desta viagem dava a entender que a plataforma TILT fica no topo da Willis Tower, quando na verdade faz parte do 360 Chicago, na 875 North Michigan Avenue, a mais de dois quilómetros de distância. Uma visita guiada a pé centrada nos arranha-céus art deco da cidade tornou isto óbvio rapidamente, porque é fisicamente impossível confundir os dois edifícios depois de se ter estado à base de cada um. Fiz também a visita a pé art deco pelo distrito de arranha-céus do Loop, em parte para testar as minhas próprias ideias feitas, e ela corrigiu mais do que um pormenor que eu tinha absorvido de fontes indiretas sem questionar.

Milwaukee não é um bairro de Chicago

Este quase dá para rir depois de se reparar nele: alguns conteúdos de viagem incluem casualmente Milwaukee numa lista de excursões de um dia a partir de Chicago, como se fosse um subúrbio distante, quando na verdade fica num estado completamente diferente, o Wisconsin, a cerca de uma hora e meia de carro ou pelo comboio Amtrak Hiawatha. A excursão de um dia que as pessoas continuam a adiar merece a sua própria identidade, não um estatuto de nota de rodapé emprestado da gravidade de Chicago.

Porque é que isto importa

Nada disto significa que ache que a versão honesta de Chicago é só um mar de rosas. O inverno é frio. Alguns quarteirões justificam mesmo alguma cautela. O L ocasionalmente atrasa-se. Não estou a tentar substituir uma história simplista por outra, mais cor-de-rosa. O que me incomoda é a distância entre a confiança com que estas afirmações são repetidas e a pouca verificação que parece existir por trás delas. Uma cidade como esta muda — um bairro melhora, uma linha de transporte é renovada, a cena da restauração transforma-se — mais depressa do que um capítulo de guia é reescrito, e a escrita raramente admite que a sua própria confiança tem prazo de validade.

Admito também o óbvio: tudo o que escrevi aqui é, por si só, uma fotografia tirada em dias específicos, filtrada pelo meu próprio itinerário e disposição. Daqui a uns anos, parte do que estou aqui a corrigir com tanta confiança pode precisar de ser corrigido também. Prefiro dizê-lo abertamente do que fingir que cheguei à versão final e definitiva de Chicago. Se um texto como o itinerário de três dias para quem visita pela primeira vez ou a comparação entre autocarros hop-on hop-off e visitas a pé ainda estiver a errar em alguma coisa daqui a um ano, espero que alguém o aponte da mesma forma que eu aqui aponto a última década de clichés repetidos sobre Chicago.

Perguntas que me fizeram várias vezes sobre esta viagem

O South Side de Chicago é realmente perigoso para os visitantes?

Certas zonas específicas têm problemas de segurança reais, como em qualquer grande cidade, mas tratar todo o South Side como uma zona a evitar ignora Hyde Park, o Museum of Science and Industry, e bairros que recebem um fluxo regular e tranquilo de visitantes a pé.

Chicago é demasiado fria para visitar no inverno?

O inverno é genuinamente frio e ventoso, muitas vezes por volta dos 0 C durante o dia, mas apresentar a estação como motivo para evitar a cidade ignora os mercados de Natal, a época alta dos museus interiores e os preços de hotel mais baixos que fazem dela uma escolha deliberada para alguns viajantes.

O metro suspenso da CTA, o “L”, é inseguro ou pouco fiável?

Há atrasos e aglomerações, sobretudo nas linhas que não funcionam 24 horas, mas a afirmação genérica de que o L é perigoso não corresponde a anos de deslocações comuns e sem incidentes nas linhas Red e Blue.

É preciso ter carro para conhecer Chicago como deve ser?

Não. O Loop, o Riverwalk, a Magnificent Mile e grande parte do North Side são percorríveis a pé ou acessíveis pelo L e pelas bicicletas Divvy; um carro só é realmente útil para excursões de um dia como Starved Rock ou Galena.

A pizza deep-dish é mesmo o que os habitantes de Chicago comem regularmente?

A deep-dish é uma especialidade virada para os turistas que a maioria dos habitantes de Chicago come apenas ocasionalmente, não é comida do dia a dia; a pizza tavern-style, de massa fina, é o que aparece com mais frequência no quotidiano.

Milwaukee é basicamente um subúrbio de Chicago?

Não. Milwaukee fica noutro estado, o Wisconsin, a cerca de 1h30 de carro ou pelo comboio Amtrak Hiawatha, e tem uma identidade cívica própria e distinta, em vez de funcionar como um prolongamento de Chicago.

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